Os presentes que não podemos comprar
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Contribuição de Maira Begalli, para para a blogagem coletiva “consumo consciente”.
Todos os anos, em meados de outubro, os meios de comunicação lançam chamadas sobre as previsões de vendas, a aceleração da economia, e do
aquecimento da indústria na época do Natal. Do outro lado, os consumidores planejam as compras que farão com o décimo terceiro, a ceia, os presentes oferecidos pelas vitrines luminosas, hiper-decoradas com uma ambientação nada tropical.
É um ritual maior que o próprio culto religioso, algo automático, quase que inquestionável. E, também, um tanto quanto disléxico no cenário atual do mundo. Um habitat linkado por redes de informação que conecta a crise financeira e socioambiental do “nosso único Planeta”, como diz Claúdia Chow.
Entretanto, depois de um longo casting, os profissionais do marketing e da publicidade encontraram o garoto-propaganda perfeito para mitigar o impacto das marcas que representam: o “Consumo Consciente”. Uma expressão arroz-de-festa, um termo ‘lugar comum’, um item obrigatório desde que salvar o planeta se transformou de utopia hippie para idéia hype de civilizados-evoluídos. Mas será que o discurso é verdade? Será que ele é aplicável na prática?
Consumir não é apenas um verbo-finalidade das Ciências Econômicas ou a fase final do processo produtivo. O ato está totalmente relacionado à antropofagia, já que na aquisição nos apropriamos não apenas daquilo que vemos. Mas, também dos ciclos produtivos que envolvem desde a extração de matéria-prima, até as condições de trabalho de quem esteve envolvido em todo processo. Há também o karma da própria intenção e reputação da marca que carrega passivos ou ativos socioambientais. Ou seja, comprar é também canibalizar várias partes ou até mesmo a totalidade de um ser humano.
A cada pisca-pisca aceso, canibalizamos as vidas daqueles que sofreram com as desapropriações que deram lugar às hidrelétricas. A cada tênis fabricado na Ásia devoramos mão-de-obra infantil. Há ainda outras opções que parecem mais atraentes, como roupas de algodão orgânico, que estão registradas sobre patentes proprietárias e deglutem a possibilidade de uma economia solidária.
Jean Paul Sartre, em ” O Ser e o Nada” afirma que nós, seres humanos buscamos ‘no nada’ (que está em toda parte, ao nosso redor, entre as coisas e as pessoas) as respostas, para preencher o vazio existencial que temos em nosso ‘eu’. Na sociedade-shopping isso fica evidente nas mercadorias, que se tornam descartáveis e obsoletas a medida que não proporcionam mais o êxtase do novo.
Falar de Consciência implica em entender o que ela é: uma qualidade psíquica, o organismo do sistema conhecedor humano, a ferramenta mental capaz de decodificar o mundo. Não é perceber-se no mundo, e fazer sua parte. Mas ser no mundo e do mundo. É nesse momento que vemos o quanto as inquietações coletivas e as rupturas contínuas da rede são importantes, o que Pinker fala em ‘no mundo e do mundo’ nada mais é do que a essência da “linkania”.
Hoje, as @’s compõem uma rede viva e mutante Entre-si. Os bens materiais criados para suprirem necessidades ou pseudo-necessidades de status quo, deram lugar para a produção do simbólico, do imaterial, das idéias recombinadas.
Assim, um grande presente de Natal, seja pelo valor ou pelo tamanho, não pode ser maior que a troca entre pessoas, que passeios no parque, que compartilhamento, que experiências. Pois todos esses não terão seus prazos de validades vencidos, não saíram de moda, não serão furtados ou desvalorizados. Dê um grande presente para todos aqueles que possuem importância na sua vida, seja flexível e procure novas formas para vida (pois ela já busca novas formas sempre).


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